Notas sobre uma Mobilização Estudantil
Acho que você é professor porque queria ficar mais tempo na sala de aula.
(Ivan Akira, Aluno do 9º D, em fevereiro de 2007)
Para “meus” Alunos
Poderia iniciar esta croniqueta dizendo: “Agora que a turbulência passou” e, dessa forma, soar ambivalente. Aqueles favoráveis à mobilização estranhariam o uso do substantivo; os contrários suporiam estar perante um texto que celebrasse o encerramento da greve estudantil. O reparo inicial é que “turbulência” pode assumir dupla conotação. Se estivéssemos a dez mil pés, num avião, associaríamos o termo à instabilidade durante o voo; mas como nos encontramos na universidade, sugiro que consideremos o aspecto positivo da palavra.
Decerto, a greve ensina. Lição primeira: a força maior dos coletivos, se comparada à energia narcísica dos indivíduos. Segunda lição: a mobilização pode favorecer que enxerguemos os movimentos “externos” à universidade com maior grau de solidariedade (vide a resistência dos trabalhadores à sanha privatista que envolve a Sabesp e o Metrô). Terceiro ensinamento: a greve é um movimento que depende de formas alternativas de organização, constituído por lideranças, grupos de trabalho, comissões, militantes etc.
Também caberia lembrar que a greve tem ritos e vocabulário próprios. No centro da mobilização, o Comando de Greve, em relação direta com outras frentes coletivas: uns que confeccionam cartazes; outros, a planejar atividades; aqueles mais, que participam das reuniões de negociação. O fato de somar discursos e propor ações que questionam os rumos da instituição, não impede (antes, favorece) que o movimento se estruture em torno de modos alternativos de gestão. Durante as assembleias, há “questões de ordem”, “apartes”, “encaminhamento de proposições” – protocolos discursivos a recordar que a greve também se nutre de certa tradição em prol da resistência.
Certamente, ela divide opiniões. Afinal, a greve escancara deficiências, questiona a racionalidade neoliberal, distingue moral e ética, provoca embates etc. É nesses momentos que a relação entre alunos e professores se torna mais delicada. Paulo Freire (na Pedagogia do Oprimido) e Jacques Rancière (em O Mestre Ignorante) ensinaram que, para além de transmitir/mediar conhecimentos a partir de conteúdos e métodos formais, seria igualmente produtivo que o professor/educador estimulasse os alunos a serem libertários – e “libertário”, vale frisar, não é sinônimo de “doutrinário” (como supõem os adeptos do senso comum).
Contraparte do estudante, o mestre que admite suas limitações e está comprometido com a educação superior, gratuita e de excelência, passará o tempo todo (dentro e fora da sala de aula) a revisitar os autores, teóricos e críticos com que trabalha, porque seu maior desejo é agregar alunos, monitores e pesquisadores em torno do que ele mesmo investiga. O professor é, antes de tudo, um incentivador.
O educador reconhecerá quanto deve à instituição em que se formou, sem perder de vista que parte de sua personalidade e de sua trajetória se constituiu enquanto se engajava criticamente, quando estudante. Um estudante do nono ano levou-me a descobrir que o professor é o aluno há mais tempo. Talvez por essa razão, persisto em convidar os discentes a circularem pelas alamedas, ruelas e becos da pesquisa e do ensino, desafiando-os a detectar os artifícios empregados pelos poetas, oradores e tratadistas durante os tempos de Brasil-Colônia.
A arte de lecionar (e de orientar) pressupõe estabelecermos um reduto de acolhida, em meio a uma sociedade neo-bandeirante, excludente e autoritária (como é a paulistana). Uma das maiores dificuldades do educador empenhado em horizontalizar as relações na sala de aula está no complexo equilíbrio entre a guarida e o paternalismo. Não se trata de infantilizar os estudantes, nem de renunciar ao papel de educador; mas de sugerir caminhos variados para sujeitos em formação, tendo em vista seu propósito de atuar na academia e/ou no mercado de trabalho.
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